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A luz da manhã fez Pitukitto esfregar os olhos. Como a noite foi gostosa! Esticou seus braços e pernas se espreguiçando demoradamente. Abriu aquele bocão mostrando seus dentes limpos e branquinhos. Que noite maravilhosa! De um salto já estava de pé observando um besouro que por ali passava já tão cedo. Esse besouro tinha uma cor marrom e uma couraça muito forte. Suas asas ficam escondidas e só aparecem quando ele resolve voar e como voa elegante! Pitukitto fica fascinado com tudo isso.

Pula da árvore-casa e depois de conversar com o peixe Rágio, sai para o passeio matinal.

Hoje Pitukitto resolve ir um pouco mais longe para explorar uma lareira onde ele percebe que está acontecendo algo diferente. Desce da árvore e entre as folhas ele vê umas criaturas estranhas. Eles tem peles coloridas, diferentes em cada um. Ele nunca havia visto esses bichos. Não se parecia em nada com seus amigos que vivem ao redor da cachoeira das três pedras. Se parece um pouco com ele, mas fazem um barulho estranho com a boca. Se aproxima o máximo que pode e fica observando como eles são. Pitukitto se lembra que a coruja Anikita havia falado certa vez dos humanos. Bichos diferentes que viviam em casas estranhas muito longe dali. Eram perigosos e todos deviam fugir deles o mais rápido possível. Então ele estava diante dos humanso, que coisa interessante. Uma humano-criança se aproxima da folhagem onde Pitukitto estava escondido a observar. Ela estava brincando com algumas coisas que Pitukitto não tinha visto.

A cada minuto que passava Pitukitto se sentia mais tranquilo e o medo já não o perturbava. Olhou para um lado e para outro e resolveu se aproximar. A humano-criança estava a brincar tão animadamente que Pitukitto também entrou na brincadeira. Ele nunca havia visto aquelas coisas de brinquedo macias e coloridas. A menininha tinha os olhos grandes e piscava o tempo todo, parecendo a Anikita. Ahhh! Pitukitto sorria sozinho daquela cena. Outras crianças foram se aproximando entusiasmadas com a presença do Pitukitto. E assim as pessoas foram se aglomerando ao redor dele. Pitukitto achava muito estranho tudo aquilo, inclusive as casas deles. Eram cabanas coloridas e lisas.

Casas Estranhas - Pitukitto queria ser gente

Casas Estranhas - Pitukitto queria ser gente

As pessoas traziam bananas e outras frutas e davam para o Pitukitto comer. Ele se sentia o máximo, pois era o centro das atenções. Não demorou muito para que ele se sentisse como amigo de todos. As histórias contadas pela Anikita sobre os humanos eram assustadoras e agora ele estava ali no meio deles se divertindo e sendo muito bem tratado. Com certeza Anikita teria uma explicação para isso. Talvez existissem humanos diferentes. Mas pra quê ficar pensando nessas coisas se o momento estava muito divertido. E por falar em diversão, bagunça é com o Pitukitto mesmo.

Tudo era festa e o dia passou rapidamente e Pitukitto nem notou que a tarde ia chegando. Todos foram se retirando para os seus aposentos e Pitukitto percebeu que já era hora de ir embora para sua árvore-casa. O único nome de criança que Pitukitto conseguiu identificar foi da Tarsila. Uma menininha de cor morena que havia brincado com ele durante todo o dia.

Pitukitto voltou para casa. As sombras das três pedras indicavam que estava realmente na hora de dormir. Subiu na árvore, se enrolou no galho-cama e ficou esperando o sono para dormir. Os sapinhos cantavam como sempre, mas o sono não vinha porque Pitukitto não conseguia esquecer as novidades daquele dia. Se levantou e começou a olhar para a lua. Como estava linda!! Grande, redonda, maravilhosa! Pitukitto ficou triste. O que estava acontecendo? Ele era tão feliz! Pelo menos era o que parecia.

Voando por ali, Anikita percebeu a situação e num vôo razante pousou bem do lado do Pitukitto e puxou uma conversa. Anikita tinha uma mania de piscar sem parar. Seus olhos eram enormes e sempre atentos. Sua asas eram grandes e quando saia voando produzia um som alto e bonito.

Anikita: - "Pitukitto. Você está diferente. Aconteceu algo ruim com você?"
Pitukitto: - "Não. Muito pelo contrário. Conheci os humanos e eles são bichos maravilhosos. Não consegui entender o que eles falavam. Mas suas ações demonstravam serem muito legais."
Anikita, assustada, com os olhos arregalados e piscando rapidamente: - "Que isso? Você tem certeza de que eram humanos?".
Pitukitto, não compreendendo a atitude de Anikita e olhando firmemente em seus olhos: - "Claro que tenho certeza, aliás eles são maravilhosos. Brinquei com eles o dia inteiro. Me deram alimento, muito carinho e atenção."
Anikita, meio desconfiada: - "Olha, eu nunca quis contar a verdade sobre o desaparecimento dos pais de Chelly e Chell, mas vou contar somente a você porque não quero deixar todos os outros bichos assustados. Mas a verdade é que os humanos os prenderam em uma grade forte e os levaram embora daqui. Eles são bichos maus e você deve se afastar deles."
Pitukitto: - "Tem certeza do que você está dizendo? A não ser que exista humanos diferentes."
Alguns segundos de silêncio.
Pitukitto, suspirando: - "Eu senti vontade de ser um humano hoje. Eles parecem tão felizes."
Anikita, descontente: - "Mas, Pitukitto, você não é feliz aqui? Você tem tudo que precisa. Tem alimento. Tem amigos. Tem uma árvore só pra você. E olha essa cachoeira, como é linda!"
Pitukitto, olhando nos olhos da Anikita: - "Você nem imagina como sinto vontade de ser diferente. Ir a outros lugares."
Anikita: - "Como assim? Você vai a todos os lugares. Eu vejo você saltando nas árvores o dia todo."
Pitukitto, cabisbaixo: - "Você não entende. Por exemplo: Eu queria ser como o Ragio. Poder nadar nas profundezas nas águas. Eu nem consigo ficar muito tempo dentro d'água e tenho que respirar. Eu queria muito ser como o Ragio."
Alguns segundos depois.
Pitukitto, pensativo: - "Olha a formiga Erinha. Ela viaja para debaixo da terra. Conhece lugares facinantes que eu nunca posso ir. Ela sempre me conta de suas aventuras debaixo da terra e como encontra lugares diferentes e belos. Veja os pombos, Chelly e Chell, assim como você, eles voam para todos os lugares. Podem ver tudo lá de cima, bem alto. Deve ser maravilhoso poder voar e vencer as alturas do céu."
Anikita ficou calada. Nunca tinha visto um bicho falando que queria ser outro bicho ou querendo fazer o que os outros bichos fazem.
Pitukitto: - "Olha para o lua. Você nunca sentiu vontade de ir até lá?"
Anikita: - "Nunca."
Pitukitto: - "Então você não me entende mesmo. Eu fico olhando para a lua todas as noites e durmo imaginando um dia morar la. Deve ter muitos bichos lá. Felizes. Deve ser um lugar maravilhoso. Você não sente isso?"
Anikita: - "Sinceramente, não.
"
Pitukitto ficou calado.
Anikita: - "Então, você está dizendo que não está feliz aqui com tudo o que tem e que seria feliz se tivesse todas as essas coisas?"
Pitukitto, pensativo: - "Acho que é isso mesmo. Gosto de todos aqui. Mas meus sonhos é ir mais além."
Anikita, depois de alguns segundos. Decidida: - "Bom, tenho que ir procurar alimento. Desejo uma ótima noite pra você. Os sapinhos estã cantando sua música de ninar. Já é hora de dormir. Boa noite!"
Pitukitto com um leve sorriso: "Obrigado Anikita, você é um boa amiga. Obrigado por me ouvir. Não se preocupe comigo, vou ficar bem, como sempre."

Anikita sai voando e desaparece na noite escura. Pitukitto fica ali pensando em todas aquelas coisa que conversara com a Anikita. Ele nunca havia falado assim desses sentimento com alguém. E parece que agora tudo estava mais claro para ele. Ele entendia que precisava realizar seus sonhos para ser feliz de verdade. Mas para o momento, o que poderia fazer, além de ouvir a música dos sapinhos e dormir?

A noite está calma. Ouve-se apenas os barulhos dos bichos noturnos. O barulho da cachoeira parece mais alto durante a noite. Pitukitto dorme tranquilamente sem saber que amanhã de manhã será um dia inesquecível. Realizaria seus sonhos? Veremos...


O portal dos sonhos << próximo capítulo
A coruja Anikita mostra para Pitukitto um lugar mágico onde ele poderia viajar nos seus sonhos.


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